Chamado de deepfake de Jair Bolsonaro pelos adversários e tratado pela defesa de Flávio como uma simulação que não pretendia enganar o público, o vídeo exibido durante a convenção do PL abriu uma discussão que vai além da legislação eleitoral.
A gravação tinha 46 segundos e começava informando que a imagem e a voz haviam sido produzidas por inteligência artificial. No vídeo, o avatar de Jair Bolsonaro pedia aos apoiadores que recebessem Flávio como o escolhido para substituí-lo. Portanto, a tecnologia não estava escondida. O problema é outro: explicar como o vídeo foi produzido não esclarece quem autorizou aquela declaração.
Posteriormente, a defesa de Jair Bolsonaro informou ao Supremo Tribunal Federal que o ex-presidente não havia autorizado o uso específico de sua imagem e de sua voz. A discussão jurídica continuará nos tribunais. O problema de comunicação, porém, já está instalado.
Quando a voz do pai ocupa o lugar do candidato
A convenção destinada a apresentar Flávio Bolsonaro como candidato terminou apresentando Jair Bolsonaro. Não o homem, mas sua imagem, seu timbre, sua autoridade política e sua capacidade de mobilização reproduzidos artificialmente.
No momento em que Flávio precisava ocupar o palco como protagonista, sua própria campanha mostrou que a voz mais poderosa de sua candidatura ainda pertence ao pai. Pior: a uma versão digital do pai.
A candidatura diz “Flávio”, mas a imagem, a emoção e o comando político continuam sendo de Jair. Em vez de representar uma transferência de liderança, o vídeo reforça a percepção de dependência.
Esse é um problema particularmente delicado para o bolsonarismo. Jair Bolsonaro construiu sua comunicação sobre a aparência de contato direto com os seguidores: lives improvisadas, discursos pouco lapidados e a sensação de que não existiam intermediários entre ele e o público. Verdadeira ou encenada, essa proximidade tornou-se parte de sua identidade política.
O avatar rompe esse contrato. A partir dele, Jair Bolsonaro deixa de ser apenas uma pessoa que fala e passa a ser também uma marca que terceiros podem fazer discursar.
A inteligência artificial também produz desconfiança
O risco dos vídeos políticos sintéticos não se limita à possibilidade de convencer alguém de uma informação falsa. Uma pesquisa publicada pela revista Social Media + Society mostrou que os deepfakes também podem produzir incerteza e reduzir a confiança no conteúdo recebido.
Essa dúvida contamina o que vem depois. O vídeo é verdadeiro? A declaração foi autorizada? A voz corresponde ao pensamento da pessoa representada ou apenas à estratégia de quem produziu a peça?
Para Flávio, o custo é duplo. Ao recorrer ao avatar do pai, reforça que ainda não possui autoridade suficiente para sustentar sozinho a própria candidatura. Ao utilizar uma fala cuja autorização específica foi negada pela defesa de Jair, permite que a discussão sobre autenticidade engula a mensagem política que pretendia transmitir.
A tecnologia, nesse caso, não ampliou apenas a presença de Jair Bolsonaro. Também tornou mais visível a ausência de uma voz própria de Flávio.
O xeque-mate está na redução dos movimentos
Eleitoralmente, o episódio não precisa ser fatal. O vídeo pode mobilizar a base, gerar exposição nacional e alimentar a narrativa de perseguição. A própria cobertura internacional reconheceu que o caso expõe o dilema da campanha: como aproveitar a popularidade de Jair Bolsonaro quando ele está impedido de se comunicar publicamente.
Na comunicação, entretanto, o tabuleiro ficou apertado.
Se Flávio continuar recorrendo ao pai, reforçará a imagem de dependência. Se tentar se afastar, abrirá mão de seu principal patrimônio político. Se admitir o erro, expõe falta de controle. Se dobrar a aposta, transforma a substituição artificial em método.
O xeque-mate não está necessariamente nas urnas. Está na redução dos movimentos possíveis. A inteligência artificial colocou Jair Bolsonaro no telão, mas diminuiu Flávio Bolsonaro no palco.
